Café com Pão

    06.09.2009 | 17h32 | Por Ápyus Soluções Digitais

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    • Música:
      Marlos Ápyus
    • Prosa: François de Oliveira

    Declamado:

    Alma interiorana, de infância sertaneja e companhia certa – a agrura do ambiente, a previsível mas impiedosa seca, os animais habituados a calar – desfolhava outras caatingas no metálico do piso estéril embaixo de si. Sentia, por paradoxal que fosse, a falta de vida no destino final de sua migração. Enquanto sempre fora disciplinado, mesmo em meio ao nada, a buscar a latência, o verdejar, a perpetuação, encontrara, ao tomar posse de parcos grãos de terra própria na cidade gigantesca, a negação, o concreto, a distância, a infecundidade por definição: o vidro, o plástico, os cargos, o dinheiro, os papéis, o lixo e o descaso. Rosto sulcado de sol e cabeça baixa, recolhia-se a uma resignação aprendida com o gado e contava com a singela e terna salvação pelo retorno de um bem – a chuva, Nossa Senhora, uma pessoa de palavra e posses merecidas – enquanto emudecia e criava os seus a fim de salvá-los daquilo: nem a indiferença urbana nem o apego sentimental de um vaqueiro poderiam constar como herança – as dores esperava levar consigo.


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